ANÁLISE DO COMPORTAMENTO APLICADA E O ENSINO ESTRUTURADO: A importância para a aprendizagem de pessoas com Transtorno do Espectro Autista e quadros semelhantes

Calixto, Vanessa Falcão Barella

Segundo Lear, o conceito da Análise do Comportamento Aplicada diz:

A análise do comportamento aplicada é uma abordagem da psicologia, com embasamento científico do Behaviorismo, que observa, analisa e explica a associação entre o ambiente, o comportamento humano e a aprendizagem. A ABA (sigla em inglês Applied Behaviour Analysis) significada Análise do Comportamento Aplicada. (LEAR,2004, p1-4)

Com base neste referencial teórico, a intervenção acontece com o objetivo de contribuir para a diminuição de comportamentos inadequados e ensinar ou ampliar comportamentos adequados socialmente. De acordo com Camargo (2005), pessoas com autismo apresentam déficit ou ausência de repertórios sociais (contato visual, habilidade de se manter em uma conversa), acadêmicas (leitura e escrita), e atividade de vida diária (como higiene pessoal) e precisam de uma intervenção estruturada para aprimorarem suas habilidades.

É um trabalho direcionado e individualizado, para cada criança atendida, são organizados objetivos e estratégias singulares. Após a avaliação, que é feita através de uma linha de base dos comportamentos observados, podemos nortear as intervenções específicas com os programas de ensino estabelecidos de acordo com o nível de cada indivíduo.

Utiliza-se ore forçamento positivo, que é um evento apresentado imediatamente após um comportamento, fazendo com que o mesmo aumente de frequência ou a probabilidade de ocorrer. Tem o objetivo de fortalecer o comportamento adequado, sendo assim mais provável que ele aconteça posteriormente. As intervenções são direcionadas para ensinar e reforçar comportamentos adequados e não utilizamos punições ou castigos por comportamentos inadequados (Martin,1941).

Uma das intervenções realizadas é relacionada ao comportamento verbal. Lear em estudos sobre as pesquisas comportamentais do psicólogo Skinner descreve que as aquisições da linguagem, assim como outros tipos de comportamento humano, são influenciadas pelo reforçamento, ou seja, a linguagem ou intenção comunicativa não se desenvolvem por mecanismo inato e sim de forma aprendida de acordo com a necessidade e o reforçamento. Lear cita como   exemplo dessa aprendizagem:

Desta forma aprendemos a dizer leite porque fomos reforçados pelo comportamento verbal de dizer leite, provavelmente no inicio ecoamos de nossa mãe a palavra leite e o reforço era ganhar o leite, então aprendemos a pedir o leite e ganhar ele. (LEAR,2004, p. 6-1)

Nesses estudos de Lear, é relatado que Skinner dividiu a linguagem em diferentes tipos com base na forma de como elas são aprendidas, o que ele chamou de operantes verbais, nos quais são alvos de programas de intervenções.

Nesta perspectiva, durante os programas são estabelecidos níveis de ajuda para a criança aprender, para que ela não tenha experiências de insucesso durante sua aprendizagem, ou seja, não são ensinadas por meio da tentativa e erro. Ela receberá ajuda e aos poucos, conforme a aprendizagem for acontecendo, essa ajuda é diminuída e extinta.

O ensino por Tentativas discretas é utilizado na ABA (Análise do Comportamento Aplicada) e é descrito por Lear (2004) como um formato estruturado e caracterizado como sequencias de aprendizagens em passos pequenos ou discretos junto com reforçamento positivo e graus de ajudas, para que o aprendiz não erre, ou seja, com base na utilização da aprendizagem sem erros.

A aprendizagem sem erros é a situação em que o a pessoa que está aprendendo não erra, levando a compreensão de conceitos através do acerto. São usos de dicas e ajudas que vão desde ajuda física total até simples e sutis. São usados os esvanecimentos que segundo Martin:

É a mudança gradual, ao longo de repetições sucessivas, de um estímulo que controla a resposta, de maneira que a resposta eventualmente ocorra diante de um estímulo parcialmente modificado ou completamente novo. (MARTIN, 1941 p.134).

Ou seja, acontece a diminuição de ajudas necessárias para obter o êxito na tarefa até a execução com autonomia. Então a intenção é que o indivíduo aprenda com os acertos, com o apoio de ajudas, porém o objetivo principal é que essa ajuda seja retirada e o indivíduo necessite dela o menos possível, realizando a proposta com autonomia.

Nesta perspectiva, Lear diz que o aluno dará muitas respostas corretas e, portanto, o valor de fugir da situação de aprendizagem diminuirá e haverá mais motivação para a aprendizagem, e dessa forma os indivíduos com atraso no desenvolvimento ou autismo terão maior probabilidade de efetivamente compreender os conceitos das tarefas propostas (2004).

Juntamente com os conceitos comportamentais, é preciso investir no uso dos materiais estruturados para os modelos de intervenções adequadas em cada caso. É necessário avaliar e entender cada indivíduo, e sobre isso, Fonseca relata que:  “O ensino estruturado inclui a utilização de uma rotina de trabalho individualizada, buscando compensar os déficits cognitivos, sensoriais, sociais, comunicativos, e comportamentais presentes no Transtorno do Espectro Autista” (Fonseca, 2016, p.20).

Como exemplo de intervenções da Análise do Comportamento Aplicada, tem-se a estratégia de ensino utilizado como DRI (reforço diferencial de Resposta Incompatível), que é utilizado para ensinar e manter comportamentos adequados. A criança é reforçada quando ocorre um comportamento incompatível ao inadequado (Lear,2004). Como por exemplo “bater “ e “abraçar” são ações incompatíveis, ou seja, a criança será parabenizada toda vez que abraçar o colega ao invés de bater pois são ações contrárias.

Outro exemplo é o DRO (reforço Diferencial de outro comportamento), este que identifica um comportamento problema e então a mesma é reforçada quando este comportamento não ocorreu durante um certo período (Martin,1941). Com esse intuito é possível organizar materiais com dicas visuais, para que o aprendiz visualize a regra em questão, como o exemplo na figura 1 logo abaixo:

Figura 1: Quadro DRO (Reforço diferencial de outro comportamento). Criado pela autora.

Na figura 1 descrita acima, há um quadro em que a criança é lembrada visualmente do combinado, e se cumprir o acordo ganha uma carinha feliz (motivação) e posteriormente pode escolher um dos objetos reforçadores indicados, que no exemplo descreve o brincar com a bolha de sabão, no parquinho ou com a massinha. Ou seja, ela é reforçada quando o comportamento de bater não acontece por um determinado período.

Outro ponto importante para esse público é a rotina visual. Normalmente elas se desorientam quando não sabem o que irá acontecer, e, em muitos casos, somente a fala do adulto não é suficiente para a criança processar a informação. Sobre essa importância, Fonseca diz que “autistas podem ter problemas com sequenciação, dificuldades em compreender o que eles deveriam estar fazendo” (Fonseca, 2016, p.29).

Para isso são utilizadas rotinas visuais com fotos, como por exemplo, em um sistema visual dividido em duas partes: o que irá executar e o que já executou. Com isso a criança consegue visualmente compreender o que irá acontecer e assim diminuir alguns comportamentos inadequados, pois ela terá a sensação de: “eu sei o que vai acontecer, está tudo bem”.

A relevância do recurso visual se dá embasada no que descreve Fonseca (2016), onde expõe que as pessoas com TEA são aprendentes visuais e que tendem a focar em detalhes (sem entender como esses detalhes se encaixam no todo), ainda possuem problemas com o tempo e organização.

Essa antecipação dos acontecimentos com ajuda dos recursos visuais, ajudará a criança a se organizar na rotina proposta. Porém é importante o processo de avaliação da linha de base, entender em qual fase está o indivíduo em seu processo de aprendizagem, sobre isso Fonseca descreve que o nível de trabalho organiza se dentro das funções motoras, cognitivas, neuropsicológicas e do conceito que estamos ensinando. Desta forma, em caso de uma criança que ainda não compreende as imagens, é preciso o uso de materiais adequados individualmente e escolher qual tipo de rotina é mais adequado para cada indivíduo (Fonseca, 2016). Este conceito é explicado com maior amplitude na página 10 deste artigo contextualizando na moldura dos materiais estruturados TEACCH.

Abaixo, na figura 2 segue um exemplo do uso de rotina e agendas visuais.

Figura 2: Foto da rotina visual, criado pela autora.

No exemplo citado na figura 2, a agenda da direita é organizada em duas partes definidas. A primeira parte com a cor amarela mostra o lado das tarefas a serem realizadas, e a parte com a cor azul demonstra as tarefas que já foram executadas. Nota-se que a cor utilizada é escolhida aleatoriamente, sem definição pré-estabelecida. Desta forma a criança consegue visualmente entender o que já aconteceu e o que irá acontecer levando a noção do tempo, de maneira estruturada e visual.

Observado que imprevistos acontecem, há estratégias para ensino de habilidade para tal, pode se utilizar como exemplo a agenda da esquerda que apresenta se em horizontal com três partes, onde a última se caracteriza por uma surpresa que irá desenvolver na criança a habilidade de organização para situações inusitadas em que não sabe o que poderá acontecer.

Dessa forma, o atendimento estruturado auxilia no aprendizado das crianças com atrasos, ensina comportamentos adequados e ajuda as famílias e professores a estruturar o dia a dia das crianças de maneira mais efetiva, ampliando se a qualidade de vida de todos os envolvidos.


REFERÊNCIAS
CAMARGO, WALTER et al. Transtornos invasivos do desenvolvimento: 3o Milênio. Brasília: CORDE, 2005. 260 p. 26,5 cm.
FONSECA, Maria Elisa Granchi; CIOLA, Juliana de Cássia Baptistella. Vejo e Aprendo: fundamentos do Programa TEACCH – O Ensino Estruturado para Pessoas com Autismo. 2 ed. Ribeirão Preto: Book Toy, 2016.
LEAR,K. Ajude nos a aprender: um programa de treinamento em ABA ( Analise do Comportamento Aplicada) em ritimo auto estabelecido. Canadá, 2 ed, 2004. Tradução organizada por WINDHOLOZ, M.H.
MARTIN,Garry,1941,Modificação do comportamento: o que é e como fazer.Garry Martin,Joseph Pear;(tradução Noreen Campbeel de Aguirre:revisão científica Hélio José Guilhardi0.-8 ed- Reimpr. São Paulo :Roca,1941.